sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Outros: CDF na escola e X-9 do pai, técnico do Rio quer refazer caminho paralisado


Cultura e música sempre estiveram ligadas à vida de Marcelo Fronckowiak. Mas foi no esporte que esse gaúcho de Porto Alegre encontrou sua realização profissional. Gremista fanático, habilidoso com a bola nos pés - pelo menos é o que ele garante - e capaz de dedilhar um repertório bacana de bossa nova em seu violão, o novo técnico do time masculino do Rio de Janeiro flertou com o futebol e até fez parte de coral infantil quando ainda era moleque. No entanto, graças à inesquecível Geração de Prata, vice-campeã no Campeonato Mundial da Argentina, em 1982, e nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, ele se rendeu à paixão pelo voleibol.


Quarto dos cinco filhos do artista plástico Luiz Roberto Fronckowiak e da funcionária pública aposentada Edi Cogo, Marcelo deu suas primeiras cortadas no Sogipa, clube tradicional da capital gaúcha que revelou craques como Renan, Paulo Roese e os campeões olímpicos Paulão e Janelson. Mas foi na Ulbra que ele fez história no vôlei nacional ao ter se tornado o primeiro líbero campeão da Superliga e ser, ao lado de Giovane, os únicos a terem vencido a principal competição do país como atleta e treinador.
No entanto, o gosto pelos estudos e a paixão pelo idioma e pelo cinema francês o levaram ao Velho Mundo em 2004. Por seis temporadas, Marcelo dirigiu o Tourcoing Lille Metropole e o Harnes, ambos da França, e trocou a visibilidade de técnicos consagrados no Brasil, como Bernardinho e José Roberto Guimarães, por uma nova cultura e uma metodologia esportiva multidisciplinar até então desconhecida para ele.
- Decidi voltar ao Brasil para refazer um caminho que interrompi. Acho que se ficasse mais tempo na França as pessoas iam acabar se esquecendo de mim. Reconheço que não liguei muito para isso em um primeiro momento, mas acho que voltei na hora certa. Tenho uma vontade enorme de ajudar o vôlei brasileiro, como acho que tenho ajudado - afirmou Marcelo.
Ajuda que muitas vezes ele foi obrigado pelo pai a dar dentro de casa na hora de “entregar” os irmãos mais velhos. Apesar de herdar a fama de bagunceiro de Marcos e André em todo início de ano letivo, Marcelo sempre gostou de estudar, e era visto por seu Luiz Roberto como o mais certinho dos três filhos homens.
- Sempre fui um cara estudioso e era muito CDF. Sempre gostei de ir à escola. Como meus dois irmãos eram da pá-virada, meu pai via em mim um cara certinho e me dava muitas funções, como checar, por exemplo, se eles tinham escovado os dentes. Eu entregava mesmo, era o dedo-duro, o X-9 da família (risos) - lembrou o treinador do Rio de Janeiro, que nesta sexta-feira e nos dias 1º e 2 de novembro fará três jogos-treinos contra a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mesmo adversário da estreia na Superliga, dia 24 do mesmo mês.
Boa-praça e articulado com as palavras, Marcelo não fugiu de nenhuma pergunta nos 45 minutos de entrevista. Sincero e de personalidade forte, ele aponta o rival Cruzeiro como favorito ao título da Superliga, discorda que a competição nacional seja a melhor do mundo e afirma que é a favor da permanência de Bernardinho e Zé Roberto à frente das seleções brasileiras.
Como o vôlei surgiu na sua vida?
Eu joguei futebol na escola e tinha até habilidade, mas o vôlei surgiu com uma força tão grande com a Geração de Prata que eu tive vontade de participar daquilo. Era notório que vinha para ficar. Influenciado pelo meu irmão mais velho, o André, que também jogava, fui para a Sogipa, clube responsável pela formação de grandes jogadores como Renan, Heloísa, Paulo Roese, Paulão e Janelson, todos com passagens pela seleção. Passei cinco anos lá e depois fui para o Frangosul, meu primeiro time profissional. Ainda peguei o final da extinta Pirelli e depois voltei para o Sul, onde ganhei três títulos sob o comando do Jorginho Schmidt, um com a Frangosul e dois com a Ulbra.
Sempre quis ser técnico?
Sempre. Me sentia um jogador-técnico dentro de quadra. Sempre fui muito líder e na maioria das vezes capitão dos times que defendi. Tive grandes treinadores como Jorge Barros, o Jorjão, Jorge Schmidt e Juarez Santini, caras com trabalhos fantásticos que sempre procurei absorver. Pensava com a cabeça de um técnico e isso estava muito claro para mim. Eu falava e cobrava muito, era bem pentelho, chegava a ser um pouco chato. Sou muito CDF, sempre gostei de ir à escola. Sempre fui um cara estudioso. Quarto filho de uma família de cinco, fui o único que seguiu carreira no esporte. Meus dois irmãos eram da pá-virada, com uma diferença de três e cinco anos, e meu pai via em mim aquele cara certinho e me dava muitas funções, como checar, por exemplo, se eles tinham escovado os dentes. Eu entregava mesmo, era o dedo-duro, o X-9 da família (risos). Na escola, herdava a fama de que eles não eram bons alunos e muito bagunceiros. Quando a professora fazia a chamada e percebia que eu era irmão do Marcos e do André, já ficava preocupada. Eu tinha que explicar que gostava de estudar e era diferente deles. Sou de uma família de artistas. Meu pai é artista plástico.
A cultura então sempre fez parte da sua vida?
Sempre. Como meu pai era artista e trabalhava em casa, tinha uma circulação muito grande de “malucos”. Eram artistas plásticos, músicos, e de vez em quando aparecia um para morar conosco. Apesar de tudo, a gente acabava se afeiçoando. Meu pai é um baita de um pintor, mas está meio no ostracismo. Teve uma certa época áurea na década de 70 e 80, mas não soube conduzir isso.
Como foi essa transição de jogador para técnico?No primeiro título da Ulbra eu participava do grupo e entrava sempre, mas no ano seguinte decidi parar de jogar e coincidiu de a Ulbra ter um plano para me incorporar à comissão técnica. Só que entrou a regra do Líbero em 98 e eles me convenceram a voltar a jogar. Acabei acumulando as duas funções e fui o primeiro líbero campeão brasileiro. Ganhei três Superligas, duas como jogador e uma como treinador. Mas no fim do ano briguei com todo mundo e saí de lá. Eu era um cara meio esquentado, e a Ulbra me mandou embora. Foram dois anos afastados do vôlei, até que em 2001 eles me chamaram de volta para integrar a comissão técnica do Jorge Schmidt, que no ano seguinte saiu por motivos particulares. Foi quando apostaram em mim. Era muito cru, mas me proporcionaram uma estrutura de trabalho excelente. Casou também porque o investimento financeiro não era muito grande. Eram apenas dois jogadores de nome, o Ricardinho e o Marcelo Negrão, e uma gurizada a fim de aparecer, como Roberto Minuzzi, Jardel, Acácio, Riad e o levantador Rafael Vieira, que está no Trentino. Foi um momento legal e uma aposta que deu certo.
Como a França apareceu na sua vida?A França é uma paixão. Primeiro pelo idioma, que foi uma coisa que manifestei muito rápido. O contato inicial aconteceu quando eu tinha entre 18 e 19 anos, e gostava muito de assistir a filmes franceses. Achava a língua maravilhosa e decidi me matricular com minha irmã mais velha em um curso de francês. Fiz seis meses de aula, e a professora disse que eu levava jeito. Nas viagens à Europa com a Pirelli, a Ulbra e o Frangosul, sempre passávamos pela França e pela Bélgica, e eu aprendia alguma coisa. Eu e minha esposa tínhamos vontade de fazer um caminho alternativo para me testar como profissional, além de viver um pouco do Velho Mundo e aprender línguas diferentes. Talvez tenha ficado além do tempo necessário, mas era uma vida tranquila, estável.
A decisão de mudar para a França foi apenas para matar um desejo pessoal de morar na Europa?
Não, o lado da formação profissional também pesou. Achava que era necessário passar por tudo aquilo. Já falava francês e estudei muito antes da mudança. Sabia que lá encontraria mais dificuldade que no Brasil com essa coisa de comissão técnica multidisciplinar. No primeiro ano, fui treinador e preparador físico. Deu um trabalho desgraçado. Foram cinco anos no Tourcoing Lille Metropole e um no Harnes, da Liga B. Foi uma experiência muito legal. Meu filho mais velho, de 15 anos, é bilíngue, e o pequeno domina completamente o idioma, mas já está perdendo. Sei que foi uma mudança sacrificante para minha família, mas valeu a pena. Conhecemos muita coisa, viajamos bastante e fizemos muitos amigos.
Chegou a pensar na possibilidade de dirigir a seleção francesa?
O Philippe Blain ficou esse tempo todo na seleção porque teve resultados importantes nos últimos dez anos. Ele levou a França ao terceiro lugar do Mundial de 2002, foi duas vezes vice-campeão da Europa e uma da Liga Mundial. Há pouco tempo houve uma seleção para escolher o novo treinador, e muita gente me incentivou a concorrer ao cargo, mas decidi voltar ao Brasil e refazer um caminho que interrompi. Acho que se ficasse mais tempo na França as pessoas iam acabar se esquecendo de mim.
Acredita que essa mudança o tenha jogado para o fim da fila entre os possíveis candidatos ao cargo de técnico da seleção no futuro?Eu não liguei para isso no primeiro momento, mas acho que voltei na hora certa. Tenho uma vontade enorme de ajudar o vôlei brasileiro, como acho que tenho ajudado. Além dos jogadores que já citei e hoje são realidade, posso dar mais dois nomes de jogadores que trabalharam comigo no Minas. O central Otávio, que tem uma carreira muito promissora, e o ponteiro Lucarelli, que provavelmente vai fazer parte do próximo ciclo olímpico. A presença do Bernardo na seleção se justifica plenamente por conta dos resultados, mas é óbvio que tenho vontade de fazer parte disso. Se me chamarem para ajudar como braço ou para integrar a comissão técnica, não medirei esforços. Me preparo há muito tempo para isso.

É a favor da permanência do Zé Roberto e do Bernardinho à frente das seleções?Claro que sim. Acho que esse novo ciclo olímpico pertence a eles e acredito que seremos campeões olímpicos em 2016 com as duas seleções.
Como recebeu a proposta do Rio de Janeiro?Ela veio aos 45 do segundo tempo, pois achava que continuaria no Minas. O universo do vôlei masculino no Brasil está muito restrito a poucas equipes que investem pesado. A minha vinda para o Rio de Janeiro pode ser justificada pelo histórico interessante da minha carreira, com resultados em times com baixo investimento e o trabalho coletivo bem feito no Minas, que chegou em quarto lugar na última Superliga com um time jovem e que não floi montado por mim.
O Rio de Janeiro tem um dos elencos mais fortes e caros da Superliga. Isso coloca mais pressão no seu trabalho?Eu lido tranquilamente com a pressão. Acho que ela é normal a partir do momento que você está na vitrine em uma cidade onde a expectativa é impressionante. O voleibol no Rio é uma marca do Brasil e isso gera expectativa. Nosso projeto quer tentar resgatar esse passado glorioso do voleibol carioca. Isso carrega todo esse peso. Sei que tenho jogadores extremamente conscientes e falo para eles que temos de lidar com o ônus do bônus. O bônus é estarmos em um time estruturado e que paga em dia, e o ônus é ter que responder a tudo isso dentro de quadra. Ganhar ou perder vai estar de acordo com a coerência no nosso trabalho. Coerência que mostramos desde o primeiro dia que nos reunimos sem a presença dos jogadores que estavam em Londres até a conquista do Campeonato Carioca. Óbvio que ainda não estamos no ponto que queremos chegar, mas soubemos responder presente com apenas sete jogos preparatórios realizados. Sabemos que o risco é todo nosso pelo alto investimento que foi feito.
É possível repetir o sucesso do time feminino do Rio de Janeiro liderado pelo Bernardinho?Acho esse paralelo muito feliz e estamos vendo isso como um esforço enorme por parte das pessoas que estão fazendo parte do projeto. Por isso eu cito o Zé Inácio, que também é supervisor e preparador físico da seleção masculina. Existe um parâmetro e uma ideia de trabalho que ele está implantando aqui, mas isso não acontece do dia para noite e necessita de uma estrutura. Hoje nós estamos locando uma quadra para trabalhar que não é nossa casa, mas precisamos ter o bom senso de saber que o Maracanãzinho é utilizado para dezenas de eventos. Estamos passando um pouco de dificuldades, mas acho que é um passo necessário. Acredito muito na possibilidade de repetirmos o sucesso do time feminino, mas ainda precisamos passar por algumas provas e pela nossa sabatina.
O atual campeão da Superliga representa um grande clube de futebol. Você sente falta dos times de camisa no vôlei?Lamento que muitas vezes essas coisas aconteçam de uma maneira oportunista. Entra uma nova direção e ela aproveita o gancho de uma eleição para montar um time como aconteceu com o futsal do Santos, no ano passado. Eles fizeram um investimento enorme e criaram a ideia de um projeto de formação de valores para o futebol de campo a partir do futsal. Mas isso não ocorreu. Eles venceram a Liga e mandaram todo mundo embora. Não sinto falta porque não tenho um bom registro disso no Brasil. Os bons exemplos aconteceram nos anos 70, quando a coisa era feita de uma forma menos profissional, apenas por amor ao clube. A gente perdeu isso. A situação do Cruzeiro é diferente. Eles adotam o nome e têm um patrocinador master que banca tudo, mas não utilizam a estrutura física do clube.
Quem são seus favoritos para vencer a Superliga?O Cruzeiro tem uma grande vantagem pela continuidade do trabalho e pela filosofia de resultados que está sendo implantada lá, além de ter se reforçado com o cubano Leal. Depois eu colocaria Sesi, Rio de Janeiro, Campinas e Vôlei Futuro, que manteve o Ricardinho, pelo investimento que foi feito. Por último, em um grupo intermediário, aparecem Minas e Florianópolis.
A Superliga é a melhor liga do mundo atualmente?Não é. A Liga Russa, a Polonesa e a Italiana estão à nossa frente. Acho que temos uma excelente liga, mas não a melhor.
Quais são suas referências nessa trajetória como treinador?O Bernardinho e o Zé Roberto são duas grandes referências pela construção daquilo que considero a escola brasileira de voleibol. Tinha muita dificuldade para explicar isso na Europa, pois eles achavam que todo jogador brasileiro tinha formação da praia. A gente copiava muita coisa de fora, mas a partir do Bebeto, do Jorjão e, principalmente, do Bernardo e do Zé, criamos muita coisa boa e nos tornamos uma referência mundial. O vôlei americano e o italiano, por aquilo que eles conseguem fazer taticamente, também são boas referências. A Argentina é outra escola interessante para mim.
É verdade que você gosta de música e arranha um violão?Adoro. Sou capaz de tocar um repertório bacana de bossa nova. Minha mulher canta também. Quando era moleque, participei de um coral infantil. Minha mulher cantava em outro e a gente se cruzou várias vezes sem saber antes de nos casarmos. Adoro MPB, música instrumental e jazz. Mas gosto de futebol também e sou um apaixonado pelo Grêmio. Fui muito aos estádios em Porto Alegre quando era moleque. Estava no Olímpico nas duas finais de Brasileiros que o Grêmio ganhou. Na verdade, adoro assistir a tudo que é esporte.
Qual a sensação de morar no Rio de Janeiro para um cara que já rodou o mundo?
O Rio está vivendo um momento ímpar. A questão dos grandes eventos está fazendo com que exista uma mobilização local e nacional para esse ícone da beleza mundial. Quem já viveu fora tem a noção do que representa esse sonho que é o Rio de Janeiro. As pessoas na França, na Inglaterra e na Europa, em geral, sonham com o Rio de Janeiro. É o exemplo mais concreto da beleza. Vejo um povo extremamente agradável e um movimento para que a cidade resolva suas mazelas e problemas que são históricos e arraigados na cultura do povo carioca e da sociedade brasileira. Se houver um esforço e uma consciência cidadã, acho que essa cidade vai ser a mais maravilhosa de se viver, pois ela já é a mais bonita do mundo. Se de alguma forma eu puder participar desse processo e ajudar dando visibilidade ao voleibol do Rio de Janeiro, tão importante no cenário nacional e mundial, me sentirei muito feliz. Estou me impregnando desse gosto pela cidade, mas acho que as pessoas ainda cuidam pouco e precisam amar um pouquinho melhor o Rio de Janeiro.


Fonte: Globoesporte.com






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