quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Outros: Pai e chefe: à la Bernardinho, Paulão assume dupla função e treina o filho


Em sua primeira experiência como técnico, 20 anos após conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona, Paulo André Jukoski da Silva, o Paulão, tem uma responsabilidade maior do que “apenas” orientar grandes craques como Gustavo Endres e Roberto Munuzzi dentro de quadra. Repete com o seu filho, Pedro Henrique, de 17 anos,  no Canoas Vôlei, a jornada simultânea de comandante e pai, já realizada por Bernardinho e Bruninho. A ideia, claro, é conseguir a mesma sintonia em família alcançada pela dupla campeã mundial pela seleção brasileira.
- Tento não transparecer muito, mas acho isso bacana. Quando eu estava começando, não tive a oportunidade de aprendizado que ele está tendo agora. E isso é muito bom. A gente nunca sabe até onde um menino vai no esporte, mas ele está focado e determinado e adora jogar vôlei - conta o profissional, sem deixar de ser coruja.

Se há semelhanças entre a dupla de pais e filhos, uma diferença entre eles também se destaca. Enquanto Bruninho herdou até a mesma posição que o pai Bernardinho, o jovem do Canoas Vôlei optou por um lugar diferente em quadra. Na época de atleta, Paulão jogava como central. Agora, Pedro Henrique espera crescer como levantador.

Primeira lição é fora da quadra
Ao contrário de Pedro Henrique, que já nasceu em uma família de campeões e recebeu todo o apoio financeiro para seguir no esporte, Paulão precisou contar com uma ajuda providencial. Todos os dias, João Batista, treinador do atleta na adolescência, deixava cinco cruzeiros na mochila do futuro campeão. Não era uma fortuna, mas o suficiente para pagar a passagem de ônibus de Gravataí, na Região Metropolitana, onde morava, até as quadras da Sogipa, em Porto Alegre.

Os valores arraigados depois de adulto em Paulão são frutos do exemplo recebido quando criança, de poder abrir mão de algo para apoiar uma causa ou alguém. Esse é um dos motivos pelos quais Paulão aceitou o desafio de comandar o Canoas Vôlei no início deste ano, quando a equipe se preparava para disputar a Superliga B. O projeto tinha como objetivo fortalecer o vôlei gaúcho e montar um time que pudesse voltar a figurar nas grandes competições. 


O primeiro passo foi dado ao vencer o Pindamonhangaba na grande final da B e conquistar o direito de disputar a divisão principal da Superliga a partir de novembro. Depois, veio o título do Campeonato Gaúcho no início de outubro, em que a equipe teve uma campanha invicta, com seis vitórias e nenhum set perdido.
Nessa caminhada, Pedro foi andando ao lado do pai. O garoto não faz parte da equipe principal, mas já teve a oportunidade de iniciar algumas partidas como titular. Com isso, usa cada minuto ao lado dos campeões mundiais, seja nos treinos ou nos jogos, para aprender algo de novo.
- Não tenho palavras para explicar o que significa essa experiência para alguém da minha idade. Poder atuar ao lado de jogadores experientes como o Endres e o Minuzzi é um sonho - explica.
No entanto, o vôlei não foi a sua primeira opção no esporte. Até porque para iniciar na modalidade precisava esperar até contar com um pouco mais de idade e altura. Por isso, quando criança, testou primeiro natação, futebol, capoeira, judô, futsal e tênis, tornando as quadras a escolha mais sólida somente aos 12 anos. E permanente, pelo que projeta o jovem:
- Foi um dos últimos esportes que tentei, mas foi o que mais me identifiquei. Fui levando na brincadeira até ver que não tinha mais como intercalar com nenhum outro e acabei optando por focar somente no vôlei.
Se o jovem tinha a liberdade para escolher o esporte que quisesse, também é verdade que a modalidade mais óbvia seria o vôlei. E não somente pela influência de se ter um pai campeão olímpico em casa. O padrinho de Pedro, ninguém menos que o ponta Giovane, também esteve presente na conquista de Barcelona, em 1992. Ou seja, o vôlei estava predestinado a continuar na família.

- A gente come, dorme, vive o vôlei - admite Paulão.
E, no que depender da paixão adquirida nestes anos, Pedro Henrique já tem profissão definida assim que terminar o colégio (atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio no Bom Conselho, em Porto Alegre). Sem pensar ainda em uma possibilidade de curso superior, o levantador tem como prioridade seguir o sonho de ser jogador de vôlei.

Para isso, trabalha com intensidade nos treinos. Além do Canoas, que frequenta cerca de três dias por semana, joga também na categoria infanto do Grêmio Náutico União, aliando lições de técnica e tática à experiência das competições.





Pai e filho? Só em casa
A pressão por repetir o sucesso do pai dentro das quadras não incomoda Pedro, que reconhece que ainda tem muito a aprender com o esporte para chegar a uma Olimpíada e, mais ainda, sustentar no peito uma medalha dourada. Para o jovem, as comparações com o pai são normais e não são motivo para se chatear. Pelo contrário, transformam-se em motivação para seguir a trajetória de sucesso da família.
E a cobrança dentro de quadra não diminui por parte do técnico Paulão, que exige do garoto o mesmo que de qualquer outro atleta do Canoas:
- Independente de ser meu filho ou não, ele é cobrado igual, não tem proteção. Até porque, conhecendo o Pedro, ele nem aceitaria nenhuma intromissão nesse sentido.
Mesmo tendo uma grande influência na carreira do filho, tanto pela escolha do esporte por meio da vivência dentro de casa quanto pelos treinamentos no Ginásio do Centro Poliesportivo La Salle, em Canoas, o que Paulão busca mesmo é priorizar os ensinamentos de amizade e respeito. São por meio deles que o caráter do jogador é formado.
- Falo muito para o Pedro seguir os valores humanos. Tudo o que eu aprendi de espetacular na vida eu tento passar, não só para ele, mas para todo o time. Respeito, determinação, ideais, objetivos... As pessoas se moldam em um ambiente positivo, de amizade, de união. E esse ambiente nós temos no Canoas. O caminho (do Pedro) de ser atleta só o tempo irá dizer se ele será de fato. O importante mesmo é o que ele aprende de valor nesse trajeto. 
Valores esses que são os mesmos responsáveis por moldar Paulão na adolescência até que chegasse a três participações em Jogos Olímpicos. Para o iniciante técnico e experiente ex-atleta, o que importa é a lição fora da quadra. O sucesso dentro dela é pura consequência. Afinal, cinco cruzados na mochila podem brilhar tanto quanto uma medalha de ouro.

Fonte: Globoesporte.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário