quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Vôlei Nacional: Atletas ficam sem comida, casa e tratamento médico no país do vôlei


No país bicampeão olímpico de vôlei feminino, empregos com altos salários não faltam a estrelas do porte de Jaqueline, Sheilla e Fabiana. Mas, entre as jogadoras “comuns”, distantes da badalação da seleção brasileira e dos grandes clubes, a situação é bem diferente. Um exemplo é o time de vôlei feminino do Volta Redonda.

Criado em março deste ano, a equipe teve bons resultados em seu início e chegou a sonhar em repetir os passos do masculino, que nesta temporada disputa a Superliga pela quarta vez seguida. O time, inclusive, se classificou para a Liga Nacional, espécie de Série B do vôlei nacional, que dá, aos seus dois primeiros colocados, o direito de disputar o principal campeonato do país.

Mas a história se desenvolveu de forma bem diferente: sem contrato assinado, com um acordo apenas verbal, as jogadoras tiveram o primeiro atraso nos salários com quatro meses de projeto. A situação foi resolvida temporariamente, mas logo voltou a se deteriorar e, no começo de dezembro, as últimas atletas deixaram a cidade após ficar desde setembro sem receber absolutamente nada.

Sob a condição de anonimato, algumas jogadoras conversaram com o R7 e detalharam a situação que viveram:

- Passamos a miojo várias e varias vezes. Também almocei e jantei muitas outras vezes em casa de amiga minha porque não tinha comida. A maior parte do tempo que estivemos aqui o diretor do time (Alexandre Rosa) nunca fez uma compra decente para uma alimentação para uma atleta. O que a gente mais tinha para comer era macarrão e carne

De acordo com outra jogadora, ter uma residência digna também era um problema. Em determinado momento, elas chegaram a ser mandadas para um apartamento ocupado por outras pessoas, que à época estavam viajando:

- Eu outras meninas todo mês praticamente tínhamos que mudar de lugar, pois eles nunca arrumavam um lugar fixo pra gente ficar. (...) A última casa onde ficamos não tinha guarda-roupa, TV, móvel, cama... só colchão, máquina de lavar roupa, geladeira e fogão.

Houve, inclusive, o caso de uma atleta, a ponteira Ellen Amaral, que machucou o joelho e precisou correr atrás sozinha da operação através do SUS, que só saiu em novembro, quatro meses depois da data da lesão. Depois, ela ainda passou por dificuldades para fazer o tratamento adequado, precisando recorrer a terceiros porque o clube só teria lhe bancado 20 dias de fisioterapia.

Nos últimos dias na cidade, antes de o Voltaço pagar a passagem para elas voltarem para casa, as atletas recorreram ao dinheiro da família e a uma rifa para se alimentarem. Agora, elas estudam entrar na Justiça para resolver a situação.

Outro lado

Acusado pelas atletas de ter sido omisso na situação, o diretor do time, Alexandre Rosa, foi procurado pela reportagem para dar sua versão sobre o caso. Ele, que após o fim da equipe feminina de vôlei do Voltaço se tornou diretor de esportes olímpicos do clube, admitiu o atraso nos pagamentos, mas atribuiu o ocorrido a uma disputa política na cidade, visto que o presidente do Volta Redonda, Rogerio Loureiro, se candidatou a vice-prefeito na chapa de oposição ao atual governante da cidade, Antonio Francisco Neto, que acabou reeleito para o cargo:

- A prefeitura repassava dinheiro para o clube para poder manter o esporte de alto rendimento, que são o futebol, o vôlei masculino, o vôlei feminino, rugby e futsal. A partir de setembro, eles cortaram esse dinheiro por uma briga política, mesmo sendo uma lei municipal estabelecida.

Alexandre ressaltou que, a princípio, o projeto teve apoio da iniciativa privada, mas era para ser de curta duração. Os bons resultados, porém, chamaram a atenção da prefeitura de Volta Redonda:

- Até maio, não faltou nada para as atletas, tudo foi no padrão do alto rendimento porque também tínhamos investimentos privados. Como a equipe estava dando visibilidade, o prefeito chamou todos os envolvidos no projeto em agosto, inclusive as atletas, e disse que ia bancar a equipe, os R$ 25 mil mensais, porque os investidores privados já tinham encerrado sua participação. E aí que começou o problema

Segundo o diretor, quando a verba parou de ser repassada, o Volta Redonda até conseguiu sanar algumas contas, mas precisou priorizar o vôlei masculino e o futebol, que já tinham compromissos estabelecidos sob pena de multa e outras punições. Quanto à jogadora operada, ele diz que deu dinheiro do próprio bolso para ajudar:

- Enquanto esteve aqui, ela foi tratando, mas depois a gente teve que dispensar a atleta, falar “Vai pra casa” porque não tinha nem lugar pra ficar aqui. No último mês, eu paguei do meu bolso todo o custo para a atleta Ellen se tratar, fisioterapia e remédio. Fiz porque entendi que ela merecia, era uma atleta que se dedicava e eu me comovi também com a situação delas: imagina ficar três meses sem receber...

Em contato com a reportagem, a assessoria de imprensa da prefeitura de Volta Redonda afirmou que o problema não tem nenhuma origem política, mas sim foi ocasionado por uma solicitação do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, que pediu a suspensão do repasse de verbas municipais para o clube por estaria havendo um conflito de interesses. O poder executivo municipal, porém, diz que já entrou com recurso contra a decisão e promete pagar as atletas assim que possível.

A CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), por sua vez, limitou-se a lamentar o ocorrido:

- Lamentamos profundamente esta situação. A CBV foi notificada do fato, pois era uma equipe que participaria da Superliga B que aconteceria em 2013. Nós buscamos, sempre que possível, apoiar clubes e atletas em situações de crise, buscando uma recolocação (agentes CBV), alguma oportunidade de patrocínio (indicação de patrocinadores para os clubes), etc. Infelizmente, quando um mantenedor toma a decisão de extinguir a equipe, pouco temos a fazer. Esperamos que as atletas tenham oportunidade em outras equipes do voleibol brasileiro e que superem este momento difícil.

Fonte: R7

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