quarta-feira, 27 de março de 2013

Entrevista: Bernardinho desabafa sobre polêmicas da Superliga

 
As quatro medalhas de ouro que as seleções brasileiras de vôlei conquistaram em Olimpíadas não impediram do esporte viver mais uma polêmica nessa semana. Bernardinho, técnico da seleção masculina de vôlei e treinador do Rio de Janeiro, comentou, com exclusividade ao programa Tie Break Unilever, que vai ao ar todo domingo no Esporte Interativo, vários assuntos que repercutiram na mídia. Ele não poupou críticas e falou sobre tudo: a pausa de três semanas até a final do torneio brasileiro; deu sua opinião sobre o sistema de rankeamento e pontos da CBV; disse que acredita que o Osasco é o grande favorito deste ano e confessou estar satisfeito com o grupo que criou no Rio de Janeiro este ano.

Os problemas do vôlei brasileiro vieram a tona com o fim do apoio financeiro do Medley ao Campinas. A equipe campineira corre o risco de não disputar a próxima temporada por falta de patrocínio. Outro ponto que gera muita discussão entre os especialistas é a distribuição que a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) dá aos jogadores da Superliga Masculina e Feminina. A intenção da entidade é aumentar o equilíbrio e evitar "supertimes", mas algumas interpretações da regra têm permitido que o Osasco, por exemplo, forme uma equipe com base na seleção brasileira campeã olímpica em Londres. Veja os principais pontos da entrevista de Bernardinho!

Calendário


"Agora tem uma paralisação muito longa, uma programação muito mal feita, 3 semanas é um tempo absurdo, não tem como você primeiro ter motivação, trabalhar três semanas para a partida mais importante do ano, a própria imprensa tem que estar em cima se não as pessoas se esquecem, se perdem no calendário, não sabem se o jogo da final já aconteceu ou não, em que fase está, as pessoas começam a perder um pouco o contato com aquilo que está acontecendo. Então, é de se repensar realmente porque essa é uma fórmula que não pode ser aprovada, você ficar tanto tempo parado. Claro que o sistema de tempo aberto é importante, é fundamental para o desenvolvimento do esporte, mas certamente também não tem sido a solução. Mas esse período de três semanas é longo demais"

Fim do Campinas

"Acabamos de ver o término de uma equipe importante como o Medley, de Campinas, e isso para o voleibol é um golpe duro, e nós precisamos buscar soluções porque o que me preocupa particularmente é a sustentação desta história. O voleibol tem demonstrado uma inconstância muito grande. Pouca consistência no que diz respeito a permanência de grandes parceiros. Então, temos que pensar e ver o que há de errado nessa história que está acarretando esse tipo de situação."



Ranking da CBV

"Eu acho que a ideia do ranking é importante e positiva, porque você tenta gerar o equilíbrio, tenta não monopolizar. Muitas vezes entra um investidor querendo ganhar logo, quer botar um monte de dinheiro para ganhar. Não é assim que a coisa funciona. Você tem que entrar para plantar, semear e ser competente para poder chegar lá, e é o que tem que ser feito. Nós, por acaso, entramos e conquistamos o título no primeiro ano há 15 anos atrás, mas não éramos a equipe favorita. Tinham grandes equipes na época, mas por uma série de fatores acabamos vencendo. A Érika era uma jovem jogadora assim como a Gabriela é hoje. Entrou e fez um campeonato espetacular. A Raquel também. Jogadoras que não eram ainda ícones e que foram fundamentais para a nossa vitória naquele ano, foram comandadas pela Fernanda e conseguimos conquistar, mas essa não é a norma. Tem que ir plantando, fazendo e construindo uma equipe que pode chegar lá e ganhar.

O grande problema que eu vejo no ranqueamento é a nossa cultura. O Brasil realmente padece de um problema cultural muito sério, todo mundo quer levar vantagem e ninguém entende que tem que ser o melhor para todos. O melhor para o voleibol. É claro que dentro da quadra vamos brigar para ganhar, mas o que importa é o melhor para todos. Então a própria votação, quando acontece, ela é hipócrita, ela é falsa. Acontecem mil distorções, e isso demonstra a pouca união, o pouco comprometimento com o verdadeiro motivo de existir o ranqueamento, que é gerar equilíbrio e  uma competição ainda melhor. As pessoas não pensam nisso. Essa desagregação mostra que a nossa Superliga não é uma Liga no sentido mais profundo, porque um quer ver o outro morto, ao invés de pensar que todos são importantes na competição. O clube pequeno ou o grande têm papéis importantes na competição, são os adversários que vão fazer com que isso funcione, mas as coisas não são pensadas desta forma, as atitudes não funcionam desta forma"

Pontos da CBV

'Acho também que a Confederação, por uma questão humanitária, pode mexer nisso tudo, mas ela não pode mexer na votação dos clubes. Eles são soberanos, na minha opinião. Muitas vezes, o nosso voto não foi predominante, nós fomos vencidos. Ano passado mesmo., tenho um exemplo clássico que demonstra a pouca seriedade da história: a Hooker, vice campeã Olímpica e destaque da seleção americana, tinha menos pontos do que a Regiane, que é uma excelente jogadora, mas que não é a Hooker. Para nós, não prejudica em nada, porque a Regiane vale menos pontos porque ela está conosco há muito tempo. É assim que isso tudo funciona, e isso é péssimo para o voleibol brasileiro. E por isso nós não temos aproveitado ainda de forma consistente o momento tão importante, com tantas medalhas com as seleções, depois de tantos resultados, por essa obtusidade, por essa questão limitação na hora de pensar no todo.

Então, quando eu digo que não somos uma Liga, é porque as pessoas não pensam no todo, apenas no seu próprio umbigo. Mas a nossa Confederação também poderia fazer alguma coisa, porque, me desculpe, aqueles que votaram, mas a Mari não deveria valer 7 pontos, é um absurdo, é injusto e incorreto! Primeiro porque ela não está jogando como uma jogadora de 7 pontos, segundo porque ela está sendo operada de novo, então por uma questão humanitária os pontos dela deveriam abaixar, para que ela possa ser contratada por alguém, e retomar sua carreira. É uma questão de entendimento, uma questão humana. Mas outros casos, como a Tandara, ela realmente merece, ela é excepcional, que ela entenda isso como um elogio, ela realmente vale 7 pontos agora, ela faz 30 pontos por partida. Ela foi fundamental para a vitória do Sesi em várias partidas e deve valer 7. A gente vota no que a gente acredita ser o valor efetivo da jogadora, qual equipe não gostaria de ter uma Tandara como atacante? Não interessa mais nada, e sim o que ela joga e representa aqui, não os interessas dos clubes. Mas os pensamentos são "como eu vou me beneficiar e prejudicar aquela equipe?" e desta forma nós vamos continuar padecendo desses males, e não vamos conseguir transformar a nossa liga naquilo que ela poderia ser"


O que mudaria no sistema da CBV

"Eu não vou conseguir mudar a cabeça das pessoas rapidamente, mas tem que mudar alguma coisa, tem que se fazer um colégio eleitoral diferente com pessoas que não tenham o interesse direto em clubes. Pessoas que possam votar, treinadores da seleção que não sejam da seleção feminina no feminino, ou masculina no masculino, ou então que não tenham ligações diretas com os clubes, porque quando eu dirigi a seleção feminina e dirigi o Unilever houve um manifesto, inclusive da equipe de Osasco, falando que eu não deveria dirigir uma seleção feminina e uma equipe feminina, que eu, de certa forma, me beneficiava dessa posição. Tem que se criar critérios e tem que ter cabeças pensantes e cabeças que estão vendo o campeonato, por exemplo o Radamés Lattari comentarista do Esporte Interativo e o Marco Freitas (comentarista do Sportv), são pessoas que acompanham tudo e tem a exata dimensão do valor técnico das jogadoras, sabem a importância de cada jogadora nesse cenário, e sem nenhum tipo de interesse a respeito de favorecer A, B ou C, sem interesses próprios. Você diluir um pouco a importância dos votos, colocar mais gente com capacidade de votar seria importante, assim como eu acho que não poderia, de forma alguma, estar centralizado na seleção brasileira, ou seja não é o senhor presidente ou o senhor responsável que tem que tomar essas decisões, não acho que seja correto e não acho que a decisão deles deva ser soberana sobre a vontade dos clubes, embora não seja uma vontade muitas vezes coerente, mas são aqueles protagonistas da competição que é a nossa Superliga" 

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